A Retrete Móvel: Conforto, Classe e Modernidade no Quotidiano de Tavira

 

     Discreta na forma, reveladora nos detalhes, a retrete móvel que o Museu Municipal de Tavira partilha este mês é um objeto aparentemente menor que esconde uma história maior sobre os hábitos, as desigualdades e as transformações da vida doméstica ao longo do tempo.

     De data incerta, mas assumindo as formas comuns destes objetos dos finais do século XIX e início do século XX, esta peça recorda-nos que as soluções para as necessidades fisiológicas fazem parte, inevitavelmente, de todas as sociedades do passado, e que a sua história é também, afinal, uma história de conforto, de classe e de modernidade.

   De Roma a Tavira: uma história nem sempre nobre

     As célebres latrinas públicas romanas eram espaços de convivência coletiva, bem distintos da privacidade que hoje tomamos por garantida. Em Lisboa, pelo menos até 1809, um edital municipal ainda regulamentava o aviso "Água vai!" antes de se despejarem as imundícies pelas janelas, numa tentativa de proteger os transeuntes.

     Em Tavira, os vestígios arqueológicos do período islâmico oferecem um retrato mais sofisticado: as casas do bairro almóada possuíam canalizações rudimentares e latrinas privadas integradas na habitação, com fossas para recolha de dejetos. Também no Núcleo Islâmico é possível observar um “Vaso da Noite”, eufemismo elegante para o “penico” ou “bacio”. De resto, ao longo dos séculos, a realidade de Tavira seria semelhante à das restantes cidades portuguesas: os dejetos eram encaminhados para cursos de água e, por fim, para o mar.

   Um privilégio de poucos

     A partir de meados do século XIX, as retretes móveis seriam relativamente comuns em casas de Tavira pertencentes às famílias mais endinheiradas. E não é difícil compreender porquê: o abastecimento de água canalizada a toda a cidade apenas aconteceu em 1932. Anos antes, em 1897, quando o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia visitaram Tavira, a escolha para o almoço régio recaiu sobre a casa de José Firmino Padinha, em parte, precisamente, por ser a única na cidade que dispunha de casa de banho e água canalizada. Um detalhe que diz muito sobre o que era, então, o luxo doméstico.

   A peça

     Esta retrete integra a coleção do museu desde 2022, por doação de Maria Margarida Contreiras de Magalhães e Menezes. 

     À primeira vista, nada na sua aparência indica a sua função: trata-se de uma simples caixa metálica, com alguma decoração pintada. O interior é composto pelos elementos necessários à sua utilização: um bacio cerâmico, colocado no fundo, e, por cima deste, uma estrutura metálica com um orifício, que servia de suporte a um vaso cerâmico, com decoração de cor azul. Sobre esse vaso colocava-se ainda um assento em madeira, para maior conforto do utilizador.

     No interior da estrutura metálica encontra-se a inscrição "HAMLET M Co.", acompanhada de uma coroa real, marca de um fabricante britânico que testemunha a importação de equipamentos domésticos do Reino Unido pelas classes mais abastadas do final do século XIX e início do século XX. 

     Aparentemente discreta e enigmática, esta retrete móvel recorda-nos um tempo em que o conforto doméstico era bem diferente, e de como, em poucas décadas, o que era privilégio de poucos se tornou direito de todos.

   Ficha Técnica

   Retrete Móvel 

     Nº de Inventário: MMT 4274 

     Datação: Finais do século XIX / início do século XX 

     Procedência: Doação de Maria Margarida Contreiras de Magalhães e Menezes, 2022

     Dimensões: Comprimento 40,30 cm | Largura 34,00 cm | Diâmetro 34,50 cm | Altura 47,00 cm

 

Altura: 
470mm
Largura: 
340mm
Comprimento: 
403mm
Diâmetro: 
345mm
Proveniência: 
Casas do Bairro Almóada
Materiais: 
Século: 
século XIX / início do século XX
Localização: