D. Miguel da Anunciação: um retrato de Coimbra em Tavira
A inscrição na moldura desta pintura é clara: "Obiit Anno 1779". É precisamente esse ano, o da morte do retratado, que nos convida, neste mês de julho, a conhecer melhor D. Miguel da Anunciação (1703–1779), bispo de Coimbra e figura marcante da história religiosa e política portuguesa do século XVIII.
Trata-se do retrato de um bispo representado em idade avançada, evidenciando calvície e cabelos brancos, com o olhar dirigido para baixo. Enverga batina vermelha, com colarinho branco, e ostenta ao peito uma cruz dourada. A composição apresenta uma moldura interna de formato oval, integrando uma inscrição na zona inferior: ao centro lê-se "D. Michael Episcop. Gomes"; à direita, "Obiit"; e à esquerda, "Anno 1779".
Pelas semelhanças com outro exemplar conservado no Museu Nacional Machado de Castro, a obra é atribuível ao pintor italiano Pascoal Parente (Resina, Nápoles? – Coimbra, 9 de janeiro de 1793), ativo em Coimbra durante o século XVIII. Parente insere-se no contexto de artistas que trabalharam em meios regionais, à semelhança de nomes ligados ao Algarve e a Tavira do mesmo século, como Diogo Mangino (c. 1730 – c. 1790), Luís António Pereira (1734–1789) e Joaquim José Rasquinho (1736–1822). Frequentemente considerados de menor originalidade, estes artistas recorriam à adaptação de gravuras e modelos difundidos, produzindo pintura a óleo sobre tela, mas também pintura de tetos em perspetiva arquitetónica e trabalhos de douramento. A atividade de Parente não se limitou a Coimbra, estendendo-se também às Beiras, com destaque para obras na cidade de Viseu.
A biografia do retratado ajuda a compreender alguns aspetos da sociedade e da política portuguesa do século XVIII. Nascido em Lisboa, a 28 de fevereiro de 1703, provinha de uma família nobre. Estudou na Universidade de Coimbra, onde, em 1725, obteve o grau de doutor em Cânones. Em 1728, ingressou no Mosteiro de Santa Cruz, tomando o hábito dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, e viria a ser eleito geral da congregação em 1737. Em 1741, foi nomeado bispo de Coimbra.
O seu episcopado caracterizou-se pelo rigor e pela revitalização da vida religiosa na diocese. No campo da educação, destacou-se a fundação do Seminário Maior da Sagrada Família, inaugurado em 1765. A sua trajetória ficou, contudo, marcada pela oposição às políticas régias durante o consulado do Marquês de Pombal. Numa carta pastoral de 1768, manifestou-se contra as orientações da Real Mesa Censória, o que lhe valeu acusações de rebeldia. Foi preso em 1769 e permaneceu encarcerado durante oito anos, sem julgamento, sendo libertado apenas em 1777, três dias antes da morte do rei D. José I. Nesse mesmo ano regressou a Coimbra, reassumindo o governo da diocese até à sua morte, em 1779.
O seu registo de óbito testemunha o profundo impacto que teve junto da população: o corpo foi embalsamado e os seus restos mortais distribuídos por diferentes locais, enquanto numerosos fiéis procuravam relíquias, como fragmentos das vestes ou mesmo o sangue, tratando-o como um santo.
E como chegou esta pintura a Tavira? Tal deve-se ao trabalho de colecionador de José Mendonça Furtado Januário (conhecido por "Zézinho de Beja"), que formou uma casa-museu nos arredores de Tavira, em Estiramantens. Parte dessa coleção foi posteriormente doada à Câmara Municipal de Tavira, constituindo um acervo artístico diversificado, onde, por vezes, se descobrem verdadeiros tesouros, como esta pintura.
Embora não se encontre atualmente em exposição, esta obra integra a coleção do Museu Municipal de Tavira, onde tantas outras histórias aguardam para ser descobertas.
Ficha técnica
Designação: D. Miguel da Anunciação — retrato
Autor: Atribuído a Pascoal Parente (Resina, Nápoles? – Coimbra, 1793)
Cronologia: 1779
Técnica: Óleo sobre tela
Proveniência: Doação / coleção de José Mendonça Furtado Januário
Número de inventário: MMT4207
Dimensões:
Altura: 47,80 cm
Largura: 38,80 cm
